terça-feira, 19 de agosto de 2014

OFICINA DE MACACOS PODCAST - VOL.9

"MIX FUCKING TAPE"


Mais uma mixtape gordurosa para nossa dieta! Johnny Wazagoo' mais uma vez grampeou algumas boas receitas dos novos chefes da cena Dub. Produtores (entenda camundongos alquimistas de estúdio) de respeito foram elencados à dedo. Dentre os nomes, destaque para Dreadsquad, Dub Terminator, Blend Mishkin, Lotek e Dubmatix. A mixtape foi lançada hoje entrando na programação da Rádio Gralha, de Curitiba, no programa do broda seletor Caê Traven. Pra todos que ouviram o programa e querem degustar a mixtape por completo segue o link para download e streaming! Para aqueles que chegaram agora: apertem o cinto e não ouçam sem capacetes! Big up, fellas!


Para fazer o download do podcast na íntegra, clique aqui!

quinta-feira, 14 de agosto de 2014

MALEEM MAHMOUD GHANIA WITH PHAROAH SANDERS

"TRANCE OF SEVEN COLORS"


Que afinidade teria o jazz com a música árabe? Existem respostas para perguntas como estas, que revelam não apenas uma ou outra obra preciosa, mas uma completa mina de ouro, resultante de um movimento musical radical em suas concepções e que até hoje influencia o modo de fazer e pensar a música. Uma destas obras, que disponibilizamos hoje, é o album "Trance of Seven Colors". Gravado pelo saxofonista tenor Pharoah Sanders em 1994. O experimento é o resultado de uma viagem feita por ele ao Marrocos. Sanders estava decidido a encontrar Maleem Mahmoud Ghania e com este, explorar de cabo a rabo as similaridades do jazz com a música Ghania do Marrocos.

NÃO SOMOS MÚSICOS DE JAZZ

Pharoah é um saxofonista de significativa importância na história do Jazz. Não apenas por ter participado de grupos históricos como o de Sun Ra e de John Coltrane, mas também por ser um dos principais personagens envolvidos na elaboração do Free Jazz, um gênero de renovação do jazz surgido nos fins da década de 50. Para compreender o espírito vanguardista dos músicos do "Free Jazz" ou "New Thing", os historiadores de jazz frequentemente relacionam a origem deste gênero com o espírito libertário que permeava os movimentos sociais que lutavam frente à instabilidade instaurada no contexto político e social dos Estados Unidos da América, tempos em que "libertar-se", parecia ser a palavra de ordem. Neste sentido o free jazz seria não apenas a rejeição de certas crenças musicais, mas esta escolha por um estilo mais livre de tocar, seria antes de tudo uma reação dos negros americanos frente à sua condição política e social. A recusa aos moldes do passado é tamanha que os próprios músicos, insatisfeitos com a linguagem e seus significados, preferem outra denominação, como Sanders que opta pelo termo "Spiritual". Sobre isto, Phil Cohran, que também fora músico da Arkestra de Sun Ra, disparou certa vez em uma entrevista:

"Em primeiro lugar, eles precisam mudar o nome, porque foi inspirado pelo bairro de prostituição de Nova Orleans. E os escritores e jornalistas que passavam por lá em busca de prostituição, notaram a música e, é claro, a forma peculiar de tocar piano. Voltavam para suas casas e escreviam sobre esta música, identificando-a como a música das “casas de jazz”. Era assim que eles chamavam as casas de prostituição. Então, o nome tem uma conotação negativa que o acompanha até os dias de hoje. Não somos “músicos de jazz”. Sou um músico sério, não toco para ganhar dinheiro ou algo que o valha. Eu toco porque minha música é a expressão da vontade de meus ancestrais.

A BUSCA POR SENTIDO

O "New Thing", "Free Jazz" ou "Spiritual" torna-se então uma busca dos músicos por novos sentidos através da música, como a busca pela ancestralidade do negro americano e também por um idioma universal, congregador, capaz de estabelecer um diálogo livre de amarras, linguagens e estruturas rigorosas. Para tanto eles rejeitam a estética do bebop e do jazz modal e entusiasmam-se cada vez mais com o retorno à formas que dão origens ao jazz como o Dixieland, e também com a música Africana. Este interesse resulta na incoroporação de uma variedade de instrumentos e na busca por manifestações culturais de variadas etnias. Mesmo tendo sido elaborado em 1994, The Trance of Seven Colors está enraizado nesta cosmovisão surgida nos anos sessenta.

THE TRANCE OF SEVEN COLORS

The Trance of Seven Colors é um disco que requer de seu ouvinte uma percepção plena, caso contrário é muito fácil acha-lo um album de difícil audição e então desiste-se de explorá-lo. Consequentemente, perde-se a oportunidade de apreciar a experiência de um diálogo universal vigoroso. Neste sentido é importante destacar que o que se ouve aqui vai além de uma simples reunião de músicos em um estúdio com a intenção de fazer música para o entretenimento. A atividade musical empreendida no album deve ser compreendida principalmente em seu aspecto ritualístico.

O ritual faz parte da tradição do povo Gnawa , um dos grupos étnicos que habita o Marrocos e, contém elementos ancentrais do oeste da África e do Sufismo. Quem conduz o ritual musical de transe com o propósito de cura e purificação espiritual é um Maleem, que significa mestre. Pharoah é quem ouvimos primeiro no disco, através de alguns rápidos fraseados. Ele logo cede espaço para o mestre, que empunhado de um guimbri (um tipo rústico de baixo cujo corpo é uma cabaça revestida de couro de camelo e as cordas são de tripa de bode) dá início à cerimônia. O disco prossegue com uma enérgica sequência de músicas em que o mestre conduz toda a cerimônia com seu guimbri, os homens tocam os instrumentos de percussão como o krkabak (algo próximo a uma castanhola metálica), intercalados por palmas, e as mulheres participam do coro. Há ainda alguns aconchegos de paz, como a música "Peace in Essaouira" em que tanto Pharoah quanto Maleem com notas sutis, criam um clima propício para a imersão na imensidão de uma noite estrelada à beira do oceano de nosso espírito. É possível que o radicalismo vanguardista do "New Thing" esteja hoje abrandado mas não esquecido. The trance of seven colors é uma das provas notáveis, que inevitavelmente nos dá ímpeto para olhar com mais cuidado para o berço do mundo, a mãe África, e sua vasta diversidade cultural, que deve mesmo ser louvada, respeitada e preservada.

"Cada música ou peça é chamada pelos Gnawas de mluk, termo que carrega o significado do espírito (masculino ou feminino) e seus correspondentes comportamento (ou temperamento), ritmo, melodia, cor e incenso. O Maleem circula pelas sete cores do transe, tocando as mluks em uma só cor até passar para a próxima. Ele só pode prosseguir à próxima quando encontra a mluk dentro daquela cor que induz o transe do adepto* principal. Esse processo, passando pelas sete cores, dura aproximadamente oito horas, com a Lilla começando por volta das onze da noite às oito da manhã seguinte."~Texto informativo do encarte



Dê o play, macaco!
"[1994] The Trance of Seven Colors"

1. Maleem Mahmoud Ghania w/ Pharaoh Sanders - La Allah Dayim Moulenah
2. Maleem Mahmoud Ghania w/ Pharaoh Sanders - Bala Moussaka
3. Maleem Mahmoud Ghania w/ Pharaoh Sanders - Hamdouchi
4. Maleem Mahmoud Ghania w/ Pharaoh Sanders - Peace in Essaouira
5. Maleem Mahmoud Ghania w/ Pharaoh Sanders - Boulandi Samawi
6. Maleem Mahmoud Ghania w/ Pharaoh Sanders - Moussa Berkiyo / Koubaliy Beriah La'Foh
7. Maleem Mahmoud Ghania w/ Pharaoh Sanders - Salat Anbi
8. Maleem Mahmoud Ghania w/ Pharaoh Sanders - Casa Casa Atougra
9. Maleem Mahmoud Ghania w/ Pharaoh Sanders - Mahraba

referências Jazz Times e BURÍ

quarta-feira, 6 de agosto de 2014

DON PABLO DE HAVANA


Um envolvente disco de música afro-cubana datado dos anos 1960, poderia, e deve passar despercebido por vezes pelos sebos e pela internet - duas das maiores fontes de quem garimpa música na atualidade. Identificado apenas com o substantivo próprio "Don Pablo de Havana", o disco não revela o seu artífice no primeiro olhar, já que não se sabe se tal substantivo refere-se ao título. Uma investigação mais apurada revela a origem brasileiríssima do disco. "Don Pablo de Havana" é uma bem-sucedida rota traçada por músicos brasileiros de ponta, em direção a ensolarada animosidade dos rítmos cubanos. O capitão da empreitada era Eduardo Lincoln Barbosa Sabóia - o organista, Ed Lincoln.

Considerado por unanimidade como o rei dos bailes e o fundador do Sambalanço e do Samba-Rock, Ed Lincoln, desempenhou um papel fundamental no desenvolvimento da música popular brasileira na década de 60, especificamente da Bossa-Nova. Nascido em uma família musical, aos 16 anos já tocava com um trio na Rádio Iracema em Fortaleza e aos 18, no Rio de Janeiro, começa a tocar na Rádio Roquete Pinto. Estudando arquitetura e participando da noite carioca, não tardou muito para que Lincoln se aproximasse da música e fosse cercado pelos pesos pesados do momento: Luiz Eça, Dick Farney, Johnny Alf, Milton Banana e companhia. Em 1955, na Boate Plaza, Copacabana, inicia sua carreira musical, ao contra-baixo, tocando em um trio chamado "Trio Plaza" que tinha em sua formação Luiz Eça no piano e Paulo Ney na guitarra. O registro desse momento histórico pode ser conferido no LP "Uma Noite No Plaza". A partir destas circunstâncias se dá o começo da carreira de um músico completo: Ed Lincoln ainda seria pianista, organista, arranjador e compositor.

"Conheci o Ed Lincoln quando ele tocava lá no Bar do Plaza. Começou como baixista do Johnny Alf. Eram ele, Alf e Paulinho Ney, na guitarra. Um trio incrível. Depois tinha também o Luizinho Eça. Ali era o verdadeiro berço da bossa nova. O Ed Lincoln é um dos precursores. Era ali que a gente ia aprender com aqueles craques todos. Foi um grande aprendizado para mim, Tom, João Gilberto, João Donato e tantos outros. Depois, o Lincoln virou "baileiro", rodando o Brasil todo com seu conjunto." ~Carlos Lyra, compositor, violonista e cantor

Porém, foi à bordo de seu orgão Hammond, que Ed Lincoln, entraria para a história da bossa e do sambalanço, explorando novas possibilidades do instrumento ao entrelaçar na dose certa, e de maneira única, o suíngue do instrumento com o suíngue de sua voz. Com essa combinação devia ser mesmo impossível ficar inerte nos históricos bailes do Rio de Janeiro da década de sessenta. Conta-se que até mesmo os apartamentos cariocas se transformavam em espaços propícios para o ritual do balanço, quando alguns menos sortudos não conseguiam garantir sua entrada nos bailes.

"Don Pablo de Havana" veio ao mundo num momento em que Ed Lincoln excursionava por territórios musicais mais propícios ao exercício da dança e não mais apenas aqueles propiciados pela brisa da bossa. Torna-se compreensível o embalo na onda do cha-cha-cha, fonte de inspiração para a combinação entre música e dança. Segundo o depoimento de José Ignacio Neto no website de música brasileira Orfãos do Loronix (uma das poucas fontes detentoras de informação sobre o disco), Ed Lincoln adorava gravar sob uma variedade de pseudônimos, cada um para um estilo ou disco diferente. Neto, também pontua que diante do lapso de informações torna-se possível apenas adivinhar o provável casting de músicos: Ed no piano e talvez no baixo, Rubens Bassini poderia ser o responsável pelos bongos e, possivelmente, comandando o sax e as flautas, Juarez. "Don Pablo de Havana" é impecável em suas composições e arranjos e com maestria devia deslocar os ouvintes brasileiros momentaneamente para os grandes salões cubanos onde se tocava e dançava com entusiasmo o mambo, a salsa, e o cha-cha-cha. O disco, ainda conta com grandes versões de "Na Baixa do Sapateiro" e "Aquarela do Brasil" de Ary Barroso em roupagem afro-cubana. Toda a obra de Ed Lincoln permanece sendo imprescindível, tanto para aqueles que querem compreender a MPB dos anos 50 e 60 quanto para aqueles que querem apenas balançar. Afinal, alguns estados de espírito são mesmo atemporais.

"Ele foi um baluarte no que diz respeito a tocar música para o outro. O baile dele era baile mesmo. Eu trabalhei dois anos com o maestro Severino Araújo, que dizia que o arranjo de gafieira devia ser escrito para o pé do bailarino. O Ed Lincoln sacava muito bem dessas coisas. Não só nos bailes ao vivo, mas nas gravações. Muita gente se reunia para fazer bailinhos, escutando vinil. O repertório sempre tinha Ed Lincoln, não podia faltar." ~Laércio de Freitas, pianista e compositor



Dê o play, macaco!
"[1960] Don Pablo de Havana"

1. Don Pablo de Havana - Alguém Me Disse (Jair Amorim / Evaldo Gouveia)
2. Don Pablo de Havana - El Choclo (A. Villoldo / M. Catan)
3. Don Pablo de Havana - Andalucia (The Breeze And I) (Ernesto Lecuona)
4. Don Pablo de Havana - Na Baixa do Sapateiro (Ary Barroso)
5. Don Pablo de Havana - Together Wherever We Go (J. Styne / S. Sondheim)
6. Don Pablo de Havana - Adios (Enric Madriguera)
7. Don Pablo de Havana - Mustapha (B. Azzam / Barclay)
8. Don Pablo de Havana - Aquarela do Brasil (Ary Barroso)
9. Don Pablo de Havana - La Cumparsita (M. Rodriguez / P. Contursi / E. Maroni)
10. Don Pablo de Havana - Climb Ev’ry Mountin (R. Rodgers / O. Hammerstein II)
11. Don Pablo de Havana - Quero Beijar-te as Mãos (Arcênio de Carvalho / Lourival Faissal)
12. Don Pablo de Havana - Delicado (Waldir Azevedo)