
Vez ou outra um disco contemporâneo divide tanto o tempo com coisas mais antigas na minha playlist. Recentemente aconteceu com o Frevo do Mundo, produção lançada em 2008 pela Candeeiro records. Selecionado pelo Programa Petrobrás Cultural, o disco traz a proposta de homenagear o centenário do mais tradicional ritmo pernambucano, o frevo. Quem como eu acha que discos de homenagem são perigosos, pois correm o risco de serem ofuscados pela obra homenageada e virarem sombras do homenageado, deve dedicar atenção à este.
O projeto funciona como um diálogo geracional, respeitoso sim mas não acanhado, e por essas e outras surpreendente. Consta do tradicional frevo de Capiba, Luiz Bandeira e Aldemar Paiva, reinventados pela Orquestra Imperial, Mundo Livre S/A, Eddie, China, Siba e a Fuloresta, Erasto Vasconcelos, Edu Lobo, João Donato, Isaar, Cordel do Fogo Encantado, 3 na Massa, Flor de Cactus e a Orquestra Popular da Bomba do Hemetério (OPBH). O esmero e a criatividade são nítidas intenções colocadas à prova, e que felizmente são alcançadas com maestria. Presente nos arranjos, nas sonoridades digitais que dividem espaço com o lirismo de outrora, e ainda na construção bem-humorada dos mesmos, tudo se harmoniza e se completa. Destaques para as notas aveludadas de João Donato, que muito à vontade transformam o frevo em coisa sua; a composição de Fred 04, única música composta recentemente, que faz uma hilária marcha de duplo sentido com Metendo Antraz; também as versões com mais elementos da música pop: Só Presta Quente, com Ortinho, e Oh! Bela, com o cantor China e o Sunga Trio, que disse que "um frevo tão popular tinha que ter uma roupagem popularesca, numa mistura de Daftpunk, Kelly Key e Capiba”; e ainda o eletrônico de Rica Amabis, Dengue e Pupillo, que casa muito bem com os arranjos do mestre Spok no frevo-de-bloco Frevo de Saudade interpretado pela cantora Céu.
Seria imperdoável não pontuar o rigor na produção e na direção artística que permitem a execução da premissa com um grande número de artistas. Parece muito bem intencionado contemplar vários maestros da orquestração pernambucana, como o mestre Spok e ainda, Duda, Clovis Pereira, Ademir Araújo e ainda os veteranos instrumentistas João Donato e Edu Lobo. São eles que providenciam bases sólidas e dão diretrizes para as trilhas inovadoras desta geração, o que mostra que a revolução musical, a reinvenção do passado de que falou Chico Science, não se faz sem referência, aprendizado. Neste sentido pontos a mais para os maestros e Pupillo, que além de manejar as baquetas do 3 na massa, toma conta da produção do grandioso album. O maestro Spok, que tem se destacado com seu incrível trabalho de renovação do frevo, elogia a proposta. “Foi maravilhoso tocar com os músicos da nova geração. Na verdade, eu transito bem entre a tradição e a novidade. Gosto muito das duas tribos”, ressalta.

Dê o play, macaco!
"[2008] Frevo do Mundo"
1. Banda Eddie - É de fazer chorar (3:20)
2. João Donato - Fogão (3:45)
3. Céu e 3 na Massa - Frevo de saudade (3:41)
4. Mundo Livre S/A - Metendo Antraz (2:26)
5. Orquestra Imperial - O dia vem raiando (3:29)
6. China e Sunga Trio - Oh, bela! (4:40)
7. Ortinho - Só presta quente (3:16)
8. Siba e a Fuloresta - Os melhores dias de minha vida (2:59)
9. Cordel do Fogo Encantado - Saudade (2:31)
10. Isaar de França - Paraquedista (4:20)
11. Flor de cactus - Inquenta muié (2:32)
12. Edu Lobo - Recife (frevo n.1) (2:23)
13. Erasto Vasconcelos - Papel crepon (3:15)
14. Orquestra Popular da Bomba do Hemetério - Cabelo de fogo (2:57)