
Experenciar a música das tribos, dos artistas de ruas inimagináveis, dos guetos esquecidos mundo afora, tem se tornado uma das mais transcedentes experiências culturais difundidas e apreciadas recentemente por artistas de cenas underground. Esse fenômeno pode ser compreendido como efeito da globalização, fenômeno ordenador de violentos choques culturais. Estes, tornam as identidades, antes rígidas, mais fluídas e líquidas, como diria o sociólogo polonês Zygmunt Bauman. Neste caso específico, nem todos os efeitos da globalização são perversos, visto que tal prática tem feito germinar uma vasta produção musical antropofágica em torno principalmente de alguns rítmos africanos e trazido um novo vigor para a cena independente ocidental. O disco de hoje, "Earthology" dos Whitefield Brothers, lançado pela Now Again Records, é mais uma obra essencial alocada neste panorama. Fruto de todo esse abalo sísmico cultural, o álbum é uma obra manifestada sob formas de expressão musicais diversificadíssimas; Se pararmos pra pensar, revisita todo o desenvolvimento de um esqueleto musical durante o século XX: pitadas da música africana, jazz, funk e rap. Com fins de simplificação, para que se abarque todo sincretismo musical contido nestas propostas, usa-se frequentemente os termos World music, ou Ethio-jazz.
Originário de Munique, o Whitefield Brothers é formado por Jan e Max Weissenfeldt. Novamente nos deparamos com jovens alemães - no último post que escrevi, falava sobre o Woima Collective, também alemães - investigando padrões musicais em outras culturas, se apropriando destas e propondo suas releituras destes mundos. A dupla tem trabalhado desde os anos noventa com música - são conhecidos também por terem fundado o Poets of Rhythm - no entanto tal abertura etnográfica tem se manifestado em seu trabalho muito recentemente. O que leva estes jovens oriundos de megalópoles repletas de conservatórios e palcos, se enveredarem por estes caminhos? Talvez as possibilidades das megalópoles tenham se tornado saturadas e monocromáticas, e o processo criativo tenha se tornado mais interessante a partir do contato com um exterior desconhecido e deslumbrante. Se observarmos as raízes destas ramas, então encontraremos o nigeriano Fela Kuti e creio eu que em maior grau de importância Mulatu Astatke. Mulatu tem agido como um guru dessa nova geração inspirando e catalizando novos paradigmas musicais. Não é difícil perceber que ele se orgulha da disseminação da música africana globo afora, ele mesmo foi criado em Londres, Boston e Nova Iorque e tem trabalhado internacionalmente.
Em "Earthology", como o próprio nome sugere, surge uma lógica global no plano criativo, uma comunhão entre rítmos e povos através da música. Tudo está atado a este conceito, desde a escolha dos instrumentos à construção de padrões rítmicos. Sedimentado num "soul cru" como eles mesmos intitulam, composto por baixo, bateria, guitarra, teclados e metais, as faixas vão pouco-a-pouco revelando instrumentos mais exóticos como Xylofones e alaúdes da Africa, instrumentos de percussão da América Central e gongos e flautas da Ásia. Tocado em sua maioria por instrumentistas alemães, há espaço ainda para samples e músicos convidados como Masaru Nishimoto, que dá um toque especial na música Taisho ao tocar um koto, instrumento de corda japonês. O disco traz a presença de MCs como Edan, Mr. Lif, Bajka, Percee P e MED e instrumentistas como Antibalas, El Michels Affair, Quantic e os Dap-Kings. Apesar de indubitavelmente dispendioso - haja viagens, experimentações, agulhadas no vinil - o registro traz um relato convincente e cheio de vigor. Se consolida como obra viva e densa e faz de seu conceito uma prova de fogo que revela a beleza da multiplicidade cultural, sua inspiração criativa.

Dê o play, macaco!
"[2010] Earthology"
links alternativos: Torrent (320kbps)
1. Whitefield Brothers - Joyful Exaltation (feat. Bajka) (1:57)
2. Whitefield Brothers - Safari Strut (3:19)
3. Whitefield Brothers - Reverse (feat. Percee P & MED) (5:27)
4. Whitefield Brothers - Taisho (2:23)
5. Whitefield Brothers - Sad Nile (3:44)
6. Whitefield Brothers - The Gift (feat. Edan & Mr. Lif) (3:54)
7. Whitefield Brothers - Ntu (2:08)
8. Whitefield Brothers - Pamukkale (3:58)
9. Whitefield Brothers - Alin (2:16)
10. Whitefield Brothers - Breakin' Through (feat. El Michels Affair) (4:20)
11. Whitefield Brothers - Sem Yelesh (3:21)
12. Whitefield Brothers - Lullaby For Lagos (feat. Quantic) (2:39)
13. Whitefield Brothers - Chich (2:30)